PANTANAL de MT/Brasil

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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Por Oscar D'Ambrosio






Nilson Pimenta
Imagens do Brasil
        Há pintores naïfs que vão perdendo sua autenticidade e originalidade ao longo da carreira. O contato com o mundo urbano, os críticos de arte e os jornalistas faz com que deixem de lado a espontaneidade que os caracteriza como criadores talentosos e representantes da cultura de uma nação.
        Nilson Pimenta percorre trajetória inversa. Ao longo dos anos, seus olhos se voltam cada vez mais para o Brasil. Em suas telas, revela aspectos multifacetados de um país caracterizado pelo trabalho árduo, pela natureza frondosa e por um grau de violência rural e urbana cada vez maior.
        Nascido em Caravelas, BA, em 1956, Pimenta saiu de lá nos braços maternos rumo a Prata dos Bainos, ES. Aos seis anos, mudou-se para Mato Grosso, percorrendo, durante 15 anos, diversas cidades da região leste do Estado, como Irenópolis, Jaciara, Barra do Garças, Brasilândia e Finca-Finca.
Ao longo desses anos, trabalhou em plantações não mecanizadas de arroz, milho e feijão, e como peão. Conheceu a vida da roça e o cotidiano das fazendas, derrubando matas e arando a terra, mas não colhendo os frutos. Roceiro nômade, também cortou e moeu cana para usinas de açúcar e participou de mutirões, festas e caçadas.
Na infância, rabiscava em papéis avulsos e mesmo em carteiras de cigarro vazias. Com pedaços de carvão, deixava suas marcas em tocos de madeira e cancelas de fazendas; com gravetos, no chão; e com os dedos, sobre a poeira na carroceria de automóveis.A partir de 1978, Pimenta, sem ter terra própria para trabalhar, passou a morar em Cuiabá.
O ano seguinte foi muito importante. Primeiro, começou a desenhar com lápis de cor sobre papel; segundo, passou a trabalhar como guarda de campo. Como o serviço era pouco, este Henri Rousseau brasileiro, de revólver na cintura como a função exigia, aproveitava o tempo livre para representar graficamente seu passado recente.
        Os primeiros desenhos foram feito com lápis de cor em papel; e a crítica Aline Figueiredo tomou conhecimento deles, ainda em 1979, graças ao pintor Adir Sodré, morador do bairro do Pedregal, em Cuiabá, que desenvolve diversas atividades artísticas, formando, desde o final dos anos 1970, um núcleo artístico popular, com dezenas de artistas jovens que, como ele, encontram na arte uma resposta aos seus anseios existenciais.
Em 1980, Humberto Espíndola, então diretor do Museu de Arte e de Cultura Popular, presenteou Pimenta com as primeiras tintas a óleo, introduzindo-o no mundo da pintura.Assim surgiram as telas de grandes dimensões em que são retratadas cenas dramáticas ou bucólicas. Como aponta Aline, o artista pinta, desde então, "estórias que lhe contam, fatos da atualidade, enredos inventados, recriados ou recordados". Além disso, em 1981, ele passou a trabalhar no Ateliê Livre da Universidade Federal do Mato Grosso, onde continua atuando como supervisor.
        Um exemplo da pujança visual do trabalho de Pimenta é Queimada do Xingu. Animais mortos em meio ao fogo são vistos próximos a bombeiros que, com suas mangueiras vermelhas, lutam para conseguir vencer as chamas. No centro da tela, índios fogem com seus arcos, atravessando a tela numa diagonal que vai do canto inferior esquerdo ao superior direito.
Merece destaque na tela a vegetação, destruída na metade inferior da imagem, e ainda de pé na superior, embora com poucas folhas, ressecada pelo calor. A cena transmite intenso vigor, e as cores quentes passam ao observador toda a agonia de uma mata destruída em proporções cada vez maiores.
        Festival dos índios é ainda mais significativa pela composição utilizada. Centenas de indígenas, inicialmente retratados de corpo inteiro e em traços cada vez mais precisos de acordo com a proximidade do observador, cercam um homem que, com um machado, corta uma árvore, na qual um macaco se pendura pelo rabo. No chão, há diversos arcos com flechas preparadas para serem lançadas e, perto do destruidor da mata, algumas ocas indígenas se espalham.
        O resultado é de grande efeito visual. As moradias e o homem estão dentro de uma figura quase geométrica que remete à imagem de útero materno, como se os índios estivessem tentando proteger a única árvore que resta, enquanto ela está sendo covardemente destruída.
        Festival de mulheres já é bem mais colorido, com predomínio do verde e do amarelo, as cores nacionais. Dezenas de brasileiras são mostradas bebendo e dançando em rituais de celebração. Ao fundo, dezenas de biquínis parecem estar voando, soltos em busca de corpos diluídos na imagem. O resultado final oferece alegria e dinamismo.
Um quadro de características distintas é Vila do Serrado. Um povoado é mostrado em suas atividades primordiais, como o retorno de uma carroça com frutas, um homem jogando sinuca, um vendedor de aves mortas, mulheres trabalhando e crianças brincando. Comparecem ainda elementos religiosos católicos e o trabalho numa rede elétrica.
Assim, a modernidade se integra à imagem, fato não muito comum nos quadros do artista, mais caracterizado por quadros como Onça, que mostra dois felinos em primeiro plano, com sua pele rica em garatujas contrastando com flores vermelhas desabrochando, que combinam com as línguas dos animais.
Ao fundo, homens em canoas compõem o ambiente, dialogando com a água em delicado tom azul. A grandiosidade das feras parece mostrar que, de fato, elas detêm o poder na região. Pimenta sabe disso muito bem, porque conviveu com esses animais. "É o bicho que mais dá trabalho para matar", diz.
        Os grandes temas nacionais também surgem na sua pintura Movimento dos sem terra, por exemplo, mostra dezenas de trabalhadores rurais com enxadas, inclusive crianças, tomando posse de terras. A cena possui intenso movimento e cativa pelo uso de espaços amarelos à Van Gogh. O intenso colorido dá uma idéia de frenesi, transmitindo a pujança do movimento.
        Colheita da castanha-do-pará, embora não tenha um conteúdo social, é uma das telas melhor realizadas em termos de cromatismo e composição. Homens com carabina nos ombros que puxam animais que carregam cestos do produto, mulheres com cestos na cabeça, uma onça próxima a uma armadilha e índios em frente a suas ocas compõem a cena.
Desde a primeira mostra individual no Museu de Arte e de Cultura Popular na UFMT, em 1981, a arte de Pimenta foi se consolidando. Na Bienal Naïfs do Brasil de 1998, em Piracicaba, SP, por exemplo, ele mostrou dois trabalhos: Fazendo pamonha e Carro de boi. O primeiro mostra quatro pessoas se protegendo do sol inclemente e trabalhando incessantemente.
No fundo, o céu azul e as árvores completam o cenário. Merece destaque a forma como é mostrado o chão, com pinceladas breves, numa espécie de pontilhismo muito particular, enquanto as telhas, por seu turno, feitas com extrema cuidado, contrastam com as figuras humanas, realizadas com a desproporção típica da arte naïf, em que os olhos e o cabelo das mulheres predominam.
        Carro de boi coloca dois pares de bois carregando melancias. As frutas se espalham pelo chão e o cenário reúne ainda quatro cabanas, e a vegetação típica do Brasil central. O vermelho interno das melancias se espalha em pequenos pontos ao longo da tela, reforçando a importância dessa cor, que, embora levemente presente, transmite energia e vibração às imagens expressas no quadro.
        Na Bienal seguinte, em 2000, Nilson Pimenta obteve o Prêmio Aquisição com a tela Moto Boy, que trata, com incrível crueza de Francisco de Assis Pereira, que trabalhava nessa função e violentou e matou, em 1998, dez mulheres, levando-as ao Parque do Estado, região Sul da Capital paulista.
A moto e os corpos em decomposição das mulheres se destacam na tela, assim como a desproporção entre o assassino, conhecido como "Maníaco do Parque", que pegou mais de 120 anos de prisão, e a mulher que ele está estrangulando. Ela, muito maior do que ele, será a próxima a se juntar àquelas que surgem espalhadas na tela. Bolsas de mão, calças, calcinhas, sapatos e um guarda-chuva contribuem para acentuar o clima de dramaticidade e de registro interpretativo de um fato jornalístico.
Pela sua força intrínseca, a imagem chamou a atenção da Comissão Julgadora, que também teve a oportunidade de ver, na mesma exposição, Nordeste, tela em que a miséria da seca é a temática. Um avião militar aparece em terra, parado, enquanto militares distribuem alimentos às esfomeadas vítimas da seca.
Mulheres carregam jarros na cabeça, uma mulher grávida segura um calango e uma bandeira do Divino Espírito Santo, que insiste em se manter de pé, representando a esperança de toda uma população. As carcaças de animais e as árvores secas integram esse cenário de miséria, que os soldados procuram reduzir.
        Pimenta, orientador do Ateliê Livre do Museu de Arte e Cultura Popular da Universidade Federal de Mato Grosso desde 1980, é hoje um legítimo representante das artes plásticas mato-grossenses é um de seus principais destaques. Para Miguel Jorge, da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), as telas de Pimenta são "feitas com amor, humor e com suas cores vivas e a luminosidade da região do Pantanal".  
        Aline Figueiredo, por sua vez, ao discorrer sobre os quadros do artista, diz: "Plasticamente a pintura é rica pela sensibilidade das massas coloridas e pela espontaneidade do traço que resulta sem erro, limpo e seco. A composição é cheia, e a ação da pintura tem objetividade graças à expressividade das formas e de sua singular colocação nas cenas, como se obedecessem uma ‘ordem’ irreverente mas que resulta harmoniosa. As cores são vivas, com o predomínio do verde, cor da natureza. Mato, bicho e gente fazem a trilogia do seu tema."
        De fato, homens derrubando matas, incêndios, antas, caititus, jacarés, sucuris, macacos e homens com enxada nas costas ou espingarda oferecem um painel do trabalho dos moradores da região, que convivem diariamente com as maravilhas e os caprichos da natureza, podendo usufruir de seus frutos e riquezas, mas também convivendo com seus perigos, como as mencionadas onças e queimadas.
Os homens e mulheres não são mostrados apenas nas atividades na roça ou com gado que Pimenta conhece tão bem. O artista inclui em seu repertório imagético cenas não muito comuns nos naïfs, como a polícia jogando corpo em despenhadeiros. Assim, o artista realiza a sua crítica social num estilo em que o ambiente sempre predomina sobre o indivíduo, que se integra ao todo não como agressor, mas como mais um integrante de um todo que funcionaria harmonicamente se não fosse o poder destruidor do ser humano.
        Com o estímulo da obtenção do Grande Prêmio no V Salão Jovem Arte Mato-grossense (Fundação Cutural de Mato Grosso), em 1981, Pimenta vem se dedicando com afinco à atividade artística. No começo de 1996, por exemplo, sem interromper a pintura, ele começou a realizar experiências escultóricas. Sobre pequenos blocos de pedra, moldou figuras com areias das Praias do Rio Coxipó ou das cachoeiras da Chapada dos Guimarães.
        Aline Figueiredo conta que, naquele ano, a prefeitura depositou um caminhão de pedras, tipo brita, num terreno próximo à sua casa, no bairro Pedregal. O material era duro e difícil de esculpir, mas sugeriu ao artista relevos de pequenas montanhas, colinas e barrancos. "Com massa plástica, a mesma usada na lataria de automóvel, ele modela pequenas figuras e as aplica firmemente na superfície da pedra", diz Aline Guimarães, que identifica o erótico e o cômico nesse trabalho de Nilson Pimenta. "O resultado final é tosco e bruto, mas interessa pela diversidade e espontaneidade."
        Com história digna de um romance e talento espontâneo identificável em cada um de seus quadros, Nilson Pimenta oferece uma visão de Brasil duplamente interessante. Por um lado, mostra, em tons de amarelo, verde e vermelho, imagens de um País rude e sofrido de trabalhadores com enxadas ou no lombo de cavalos; por outro, trata da violência social com crueza e originalidade, lembrando que o Brasil, além do carnaval e do futebol, está repleto de cidadãos que lutam por melhores condições de trabalho e que enfrentam o alto índice de violência social que se espalha por toda parte.

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   
   

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